TREINAMENTO DE FORÇA E OBESIDADE

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Há sete anos, a American Medical Association, uma das grandes organizações médicas do mundo, classificou a obesidade como doença. Com o passar do tempo, outras entidades médicas, incluindo a Organização Mundial da Saúde, reconheceram a obesidade como um problema crônico, que necessita de tratamento específico e de longo prazo. Atualmente a obesidade é considerada uma doença crônica, multifatorial, recidivante (recorrente), neurocomportamental, na qual o aumento/acúmulo da gordura corporal promove uma disfunção no tecido adiposo promovendo efeitos adversos (metabólicos, biomecânicos e psicológicos).

As causas da obesidade são pouco compreendidas, mesmo entre profissionais de saúde, muitos ainda veem o sedentarismo e a alimentação como os únicos fatores contribuintes para a doença, desconsiderando as condições genéticas, psicológicas e ambientais contribuindo para o que chamamos de estigma da obesidade. O índice de massa corporal (IMC) é um dos parâmetros usados para diagnosticar se o indivíduo tem ou não excesso de peso ou obesidade, mas não é o único.

Um consenso recém publicado na revista Nature (2020) chama a atenção para tal questão, reforçando que alguns pontos seriam cruciais para prevenção e tratamento da obesidade, dentre os quais a publicação destaca: tratar o indivíduo com respeito e dignidade, reconhecer a obesidade como doença, combater estereótipos e preconceitos e traçar iniciativas educacionais, principalmente com foco em prevenção. A importância de tais ações se justifica pelo fato de enfrentarmos uma enfermidade, já considerada epidemia mundial, que atinge aproximadamente 300 milhões de pessoas no mundo, sendo responsável por quatro milhões de mortes, 120 milhões de situações incapacidade funcional e 70% das mortes por doenças cardiovasculares.

A obesidade funciona como a porta de entrada para outras doenças, tendo muitas vezes como ponto central a resistência à insulina. Entender o papel do tecido adiposo vem facilitando a nossa compreensão dessa relação.  O tecido adiposo atualmente é considerado um órgão endócrino que produz e libera vários fatores peptídicos e não-peptídicos chamados de adipocinas, ou seja, citocinas produzidas e secretadas pelo tecido adiposo. As adipocinas desempenham funções fisiológicas diversas, incluindo a regulação da pressão arterial, homeostase vascular, metabolismo lipídico, glicídico e angiogênese. Ou seja, são consideradas mediadoras e reguladoras de respostas imunes e inflamatórias. Portanto, atualmente a obesidade também é considerada um estado inflamatório.

O processo inflamatório oriundo da obesidade também repercute em efeitos adversos no musculoesquelético. A infiltração de gordura intramuscular e intermuscular altera a ação das miocinas (citocinas produzidas e liberadas pelo músculo) levando a várias complicações, dentre elas a obesidade sarcopênica, gerando um declínio da massa, força e função muscular. As miocinas mediam a comunicação entre os músculos e outros órgãos, incluindo cérebro, tecido adiposo, osso, fígado, intestino, pâncreas, leito vascular e pele, bem como dentro do próprio músculo, através de seus efeitos autócrinos, parácrinos ou endócrinos. Diante desse quadro, é imprescindível que o indivíduo com obesidade participe de programas de Treinamento de Força.

De forma geral, a prescrição de exercícios para indivíduos com obesidade deve ser pautada no que ele tem de melhor: promoção da saúde cardiovascular, respiratória, musculoesquelética, metabólica e eu ainda acrescentaria a saúde mental. Enquanto estivermos pautados na prescrição unicamente para redução do peso estaremos fadados ao fracasso. É crucial enfatizar que o exercício traz muitos benefícios à saúde, mesmo na ausência de modificações siginificiativas no peso e composição corporal. Os benefícios específicos do treinamento de força, como o aumento da força, potência, resistência e massa muscular são fundamentais para o indivíduo com obesidade. Além de melhorar a qualidade muscular e a capacidade muscular, tal prática também atua no controle cardiometabólico, a partir da liberação de miocinas estimuladas pela contração muscular, contribuindo para um efeito anti-inflamatório no organismo.

Em revisão sistemática publicada pelo nosso grupo (de Salles et al., 2010), nós investigamos o efeito do treinamento de força nas citocinas. Como principais achados observamos que as alterações nos níveis de adiponectina (aumento), leptina (redução) e proteína C-reativa (redução) foram mais evidentes em indivíduos com sobrepeso/obesidade; as intervenções com duração ≥ 16 semanas apresentaram resultados significativos e positivos para adiponectina (aumento) e proteína C-reativa (redução), enquanto a leptina (redução) respondeu em períodos mais curtos; intensidades ≥ 80% de 1 RM resultaram em maiores efeitos na adiponectina (aumento); e nenhuma alteração foi observada para o fator de necrose tumoral alpha (TNF- α).

Em um estudo conduzido durante o meu doutorado (Dias et al., 2015) investigamos os efeitos de um programa de treinamento de força sobre a função endotelial, perfil hemodinâmico, metabólico e inflamatório, composição corporal e condicionamento físico de adolescentes obesos. Em resumo, um programa de treinamento de força foi capaz de melhorar a função endotelial, parâmetros hemodinâmicos e metabólicos, marcadores inflamatórios (citocinas), composição corporal e aptidão física de adolescentes, independente de alterações na massa corporal. Por fim, reiteramos a ideia de que o treinamento de força deve fazer parte de programas destinados à prevenção e controle da obesidade, não só em adultos, mas também em crianças, adolescentes e principalmente idosos.

Referências:

 

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